Das raças misturadas surgiam novas raças Então a fome batia a porta de novas casas Essa fome era maldita e chegava de repente E foi aí que descobriram que se podia vender gente


 Das raças misturadas surgiam novas raças

Então a fome batia a porta de novas casas

Essa fome era maldita e chegava de repente

E foi aí que descobriram que se podia vender gente


Às vezes por inteiro, outras vezes em bocados

Muitas vezes por dinheiro, outras vezes por um cargo

Novo de chefia numa empresa da capital

E assim decepava-se outra cabeça nacional


As autoridades perderam autoridade sobre esse crime

Deixou de ser crime, virou fraqueza do regime

Uns dormiam gradeados com medo de perder um braço

O mercado especulativo pagava bem por um pedaço


E p’ra matar a fome há quem matava uma pessoa

Quantos perderam a vida p’ra os outros ganharem vida boa?!...

Naquele ano já nem se pensava em matar animais

As pessoas pesavam-se em Dólares ou Meticais


E digo mais...surgiram os canibais

Com a fome daquele ano, filhos comeram pais

Quando a barriga rói, há sempre um atalho

Toda gente já sabia o que se vendia no talho


Sem trabalho, sem perspectiva de vida

No ano da fome, nenhum beco tinha saída

Mata-se por comida, e todos eram comida

Todos mentiam, mas a verdade era sabida.



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